sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Domingos


Maíra era o tipo de garota que detestava o próprio nome mas não se arrumava um apelido que presta. 'Mai' era chato demais, lembrava Maio, que era masculino, então ficou Maia, tipo ancestrais exóticos colonizados por espanhóis. Maia, porém, não foi colonizada por ninguém. Era feminista até os fiapos da perna depilada quinzenalmente. Maia se autodenominava vítima da mídia por curtir todos os best-sellers atuais,  apaixonada pela beleza exótica de uns países da  África e era uma grande colecionadora de acessórios asiáticos. Tinha dezenove (sua idade) tipos de bindi (pelo menos quatro de cada) guardados e sempre tentava repor a cola deles. Bindis representam a força feminina, e Maia, bom, era bem feminista mesmo.

Usava preto ou branco na maior parte do tempo. Macaquinho ou vestido, saia ou short. Colecionava pedras brutas, tênis de corrida e escrevia poesia em bloquinhos de papel que ganhava na rua. Melhor publicidade do mundo, claro. Maíra fazia artes visuais (segundo período) e não tinha ideia do que queria pra vida. Talvez morar na Tailândia ou escrever poesia no Rio.

Ele chamava João e odiava nomes compostos. Principalmente o dele, e sempre se recusa a falá-lo. Ele tinha uma tatuagem bizarra de zebra no braço (disse que fez bêbado por causa de uma aposta, mas todo mundo sabe que é a desculpa para o impulso de ser radical aos 16 - e bem sóbrio) e não tinha nada a ver com nada. Nenhuma tribo parecida, nenhum estilo definido, nenhum grupo de amigos 'padronizado'. João prefere cds a spotify e netflix a tv a cabo. Ele andava com a mesma camisa da The Hives (que ele mesmo estampou, aliás) na maior parte do tempo e ela tinha um furo pequeno perto da barra, pois tinha um tique nervoso de desfiar aquele pedaço até furar, e depois, alargava o buraco. João não fazia faculdade de nada porque não tinha nada a ver com nada.

Maia cortou o cabelo escuro estilo long bob no aniversário, porque viu no Pinterest que cabelo com ondas acabava ficando mais bonito assim. Acabou que suas ondas quase sumiram com isso e resolveu começar a usar chapéu até se acostumar. Mas ela não tinha chapéu, então resolveu acordar cinco da manhã para passear pela feira hippie de BH e ver se encontrava algum. Ela colocou um vestido preto, bota chelsea preta, pegou uma bolsa preta e sinalizou para um ônibus azul. Sentou na janela do banco mais alto.

João estava com uma camisa social azul lendo Folha de São Paulo de segunda passada só para ler os quadrinhos e a crônica do Gregorio Duvivier.

Da última vez que Maia checou, a maioria das feministas tinham alguma raiva do Gregorio por ele falar muito sobre feminismo sendo homem e receber atenção. Maia parou de ler o horóscopo da Folha de São Paulo porque ficava na mesma página da crônica do Gregorio. Ficou só na parte da Síria mesmo.
João era de aquário.
Maia era lua.
(Sim, Maia era de escorpião.)
Maia baixou o aplicativo da Susan Miller para ler seu horóscopo, já que estava impossibilitada de ler a Folha. O horóscopo propunha ficar na sua, então Maia resolveu parar no próximo ponto e voltou a pé para casa. Já estava bem claro. Eram 6:15.

6:25 João resolveu que era hora de voltar pra casa. Ia sinalizar para um ônibus azul que já ia parando e subiu. Deu graças a Jah que o banco mais alto estava desocupado. Resmungou porque estava quente.

Procurando a chave da porta, Maia percebeu que um de seus anéis estava faltando. Era seu favorito, e piamente acreditava ser seu amuleto da sorte.

João tirou debaixo da sua bunda um anel largo com uns desenhos em relevo. Colocou no dedão. Tem quem diga que anel no polegar é coisa de gay, mas João não se sentiu atraído por homens quando colocou, então prefere a teoria de determinação, força e independência.

Maia apagou o aplicativo da Susan Miller.

João não tirou o anel do dedo. Chegou em casa e dormiu com a mesma camisa e com um maço de cigarro no bolso.
☁ ☁ ☁

De novo, João passou a madrugada de domingo fumando com dois de seus amigos nada a ver perto da Lagoa dos Marrecos. Virou meio que uma tradição deprimente. Lá para as 6 saiu meio grogue em direção à feira procurando pastel.
Maia resolveu aproveitar a ida para levar mais dinheiro e comprar algum artesanato para sua estante de bugigangas.
O anel estava apertando, e ao tirar, uma marca vermelha com as letras 'ms' permaneceu no seu dedo.
Muitas bugigangas.
Colocou o anel no outro polegar.
"Mas onde tem um pastel por aqui?"
"Não, também apertado."
"Não tem lugar pra sentar?"
"Vou espairecer na calçada."
"Vou comer na calçada".
"Que frio."
"Que merda, engordurei minha mão!"
"Que menina esquisita".
-Ou, esse anel é meu!
-Quê?
-Quê o quê, cara? Esse anel é meu!
-E quem disse?
-O MS marcado no seu dedão, idiota. Maíra Silva, eu.
-Posso ser Marcos Santos e ser meu.
-Ai, meu deus.
-Ei, relaxa. Eu acredito.
-Ah, obrigada. Achou onde?
-Ônibus.
-Maldito ônibus.
-Quer um? - Cigarro para não espairecer a menina.
-Não, eu não fumo.
-Então vem beber alguma coisa.
-Não bebo.
-Sem álcool.
-Gosto de ficar desidratada.
-Mas que porre, hein?
-Sou escorpião.
-E eu sou paulista e não ligo.
Todo mundo sabe que água e ar não dão em nada.
-Hnffr.
-Ahn?
-Tá, desculpa. Vamos. - Andando até uma lanchonete logo ali.
-João.
-Só João?
-Prefiro só João.
-Café ou chá? - Cara da lanchonete logo ali.
-Café. - João
-Chá. - Maia
Não dão em nada mesmo. Principalmente se Maíra foi um erro do cartório. Maíra sempre agradece por não se chamar Maria da Silva e poder ser chamada de Maia. Qualquer coisa era melhor que Maria.
-Maíra?
-Prefiro Maia.
-Justo. Por que diabos alguém acorda de madrugada num domingo?
-Para ter o doce prazer da sua companhia.
-Atiradinha você.
-Melhor do que virar a madrugada fumando sozinho.
-Não tava sozinho.
-Mas já é deprimente o suficiente virar a madrugada fumando.
-Sou deprimido.
-Não é não. Você é entendiado. Eu sou deprimida. - As bebidas chegaram.

Maia reparou que os olhos do João eram, tipo, muito claros. E o cabelo também, apesar de ser castanho e liso, duas coisas que geralmente não chamam a atenção dela. João reparou que Maia tinha um aglomerado de pintas no ombro que pareciam uma constelação e no meio do cabelo, nascia uma mecha perfeitamente branca.

-Por quê?
-Porque a autenticidade está morta. E se não tem autenticidade, não tem Maíra.

João ficou envergonhado ao reconhecer que não tinha nenhum retrato da sua personalidade reconhecível por aí. O moleque tinha dezenove anos, não fazia faculdade, nenhum curso, não sabia cozinhar, se vestir bem, jogava videogame o dia inteiro e usava uma camisa furada do The Hives a maior parte do tempo. João se achava tão sem graça e peso morto que teve vergonha de estar do lado de uma pessoa que parecia tão interessante quando Maia parecia.

-Então estou morto também. Todos os cursos, até a faculdade, ou qualquer tipo de aula que já fiz, larguei.
-Foi autêntico por assumir não querer continuar e sair.

Em um pulo, Maia pegou sua bolsa e saiu bebendo o chá em um copo descartável. Jogou dois reais na mão de João e saiu correndo depois de falar algo do tipo 'bom-te-ver-até-obrigada-paga-depois'.

João voltou para casa sozinho após jogar sua bebida fora, fedendo a cigarro e café (ele não gosta de café, mas acha bebida de gente inteligente, e ela poderia o achar mais interessante por beber). Foi a pé mesmo, já que uma garota mais ou menos da sua altura interrompeu seu espairecimento. Chegando na esquina da sua rua, porém, reparou aquele chapéu enorme e duas sacolas de plástico entrando na rua acima da sua. Como um bom psicopata, a seguiu escondido até vê-la entrar em um prédio velho descascando e de portão enferrujado. Esperou um minuto até ver uma luz se acender lá pelo terceiro andar.
Maia voltou para casa sozinha e a pé, carregando uma dúzia de miniaturas de pessoas sem rosto. Provavelmente feitas para crianças colorirem, mas ela gostava assim. Subiu para seu apartamento (302) e enfileirou todas perto da cama. Reorganizou o quarto quatro vezes, trocando o lado da cama para um canto em que harmonizasse com o feng shui. O problema é que nada esotérico a faria acreditar em destino, e ela meio que estava mudando de ideia.
Ele correu de volta para seu próprio prédio, na rua abaixo, mais adiante. E continuou fumando nos domingos de madrugada entre a feira e a Lagoa dos Marrecos, mas ela não apareceu mais. Sortudo seria seu vizinho da cobertura que tem uma visão incrível das duas ruas. A dele e a de cima.

☁ ☁ ☁

Umas cinco semanas depois ele resolveu estampar uma camisa do The Hives igual a sua e largou com o porteiro. Para a Maíra, quando ela descer. Ele não tem nem ideia do porquê fez isso, mas ela podia gostar de The Hives mais do que ele, que só conhece três músicas mas usa a camisa quase todo dia. João também resolveu tentar aprender a tocar violão, porque era um pecado não saber tocar nenhuma droga de instrumento e parecia que todo mundo sabia tocar violão.

A Maíra não sabia, na verdade. A corda machucava seus dedos mesmo após semanas de prática, então desistiu. Se assumiu como portadora da Síndrome da Pele Fina do Dedo (SDPFDD) e nunca mais olhou para o violão de novo. Porém olhou para a camisa com a estampa de um violão, com algumas cabeças de artistas, idêntica àquela usada pelo moleque do anel que ela já não lembrava o nome, mas disse o porteiro que era João. Maia estava, sim, meio amuada sem motivos aparentes, mas concluiu que foi por ter assumido a morte da autenticidade no mundo. Mas, claro, como feminista, resolveu redirecionar sua tristeza à sororidade. Amigas choronas em processo de desconstrução ou algo assim. Maia na verdade gostava de The Hives (o que é até meio estranho, já que ar e água realmente não tem nada em comum) e resolveu ir na padaria comprar o cigarro que tinha a embalagem mais bonitinha. Pensou em mudar de curso para algum design. Dormiu no sábado indo a pé para um domingo escuro (a insônia não a deixou cochilar de novo depois das três da manhã), mas não tinha ninguém fumando entre a Lagoa dos Marrecos e a feira. Por algum motivo que ela desconhecia, começou a choramingar e acabou acendendo um cigarro e engasgando, tossindo e dando uma morrida rápida. Também não era uma decisão inteligente fumar sozinha de madrugada num fim de semana, mas Maia era feminista e acreditava que se fosse um homem, estaria tudo bem.

-Achava que não fumava ou que era boa demais para fumar sozinha.
João tinha ido visitar um banheiro químico e estava segurando o cigarro entre os dentes, amarrando o tênis, quando viu a fumacinha e uma menina vestida com uma camisa do The Hives igual a dele. Só que sem um furo.
-Senta aí e me faz companhia então. Não tenho humor sem sono. Só ressaca falsa.
-Eu tô com ressaca real mesmo. Então gosta de The Hives?
-O suficiente pra gostar da camisa. Hm, obrigada. Fica com isso. Não levo jeito. Era pra você mesmo. Pra agradecer a camisa.
-Então tá. Obrigado.
João tinha percebido que Maia tava meio que chorando quando ele chegou, então preferiu fingir que não viu (gente durona geralmente não gosta que apontem sua sensibilidade, ele ouve dizer) mas não queria deixá-la sozinha. João não era machista, mas sabia que acompanhá-la a deixaria menos vulnerável para as figuras da madrugada.

Ele passou a acompanhá-la para casa nos domingos em que ela fingia fumar e ele parava aos poucos (os amigos de fumar domingo viraram os amigos de beber sexta e tudo ficou equilibrado), ela largou os macaquinhos para usar a camisa do The Hives. Ficaram assim alguns meses até que passaram a parar ou em um apartamento ou no outro. Não que fizesse grande diferença. Só se viam nos domingos, praticamente, já que por mais não-aquariano que João fosse, continuava prezando sua liberdade de fazer nada o dia todo (embora o dia da semana favorito dele virasse domingo). Maia também concordou com isso (sem precisarem dizer nada, na verdade), já que essa sempre foi uma característica sua.

Maia largou o curso de Artes Visuais para fazer Design de Produto e João começou a fazer Design Gráfico. De vez em quando eles falam sobre criar uma marca de camisetas estampadas, mas não pretendem trabalhar nos domingos. Nem fazer camisas de banda.

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