domingo, 12 de julho de 2015

Mesa redonda sobre as árvores (ou 'conversa de café')


Tenho uma amiga marciana pisciana incrível.

Linda a garota, negra do cabelo nuvem de cachos. Sempre trabalhada nas cores quentes, nos brincos enormes e nos blocos de canson 180g/m² debaixo do braço. Era domingo de manhã e ela ria como num sábado a noite. Andava dançando, falava cantando, comia devagar um brownie recheado enquanto descascava o esmalte roxo da unha. Tinha costurado o vestido estampado na noite anterior. Poderia ter saído da farm, mas veio da sua cabeçinha genial. Não tenho ideia do que acontece nela.

Estendi um braço para abraçá-la enquanto ela acelerava o passo e afastava seu brownie.

_Ei, Cecília.
_Ou, Renata... Que dia, hein? Vou ficar louca uma hora dessas. - Puxei a cadeira de madeira com estofamento vermelho.
_Me fala o que te aflige, querida.
_É recente... Aconteceu hoje mesmo, na verdade. Num minuto eu estava bem, quase cochilando no ônibus com aquele ventinho na cara e aquele barulho de estrada silenciosa... Tão filme! Acabei abrindo os olhos e vendo uma sequência de árvores. Só que em segundos elas resolveram não ser mais árvores!
_Mas já tá tendo alucinações, menina? Com 19?
_Não, não uma alucinação... É como se elas simplesmente se mostraram reais. Tipo aquela figura que é um pato ou um coelho ou um gato, sei lá, e você descobre que na verdade é outra coisa completamente diferente e não consegue mais ver o que você sempre viu. Eu descobri o que as árvores realmente são.

Dou corda para tentar acompanhar sua viagem.

_E o que elas são?
_Não sei direito, na verdade. Eu não vi o rosto de nenhuma ainda.
_O rosto?
_Sim! Elas simplesmente estão paralisadas como avestruzes. Estão assustadas e enfiaram a cara num buraco. Mas acabou que elas perceberam que não morreriam ficando assim para sempre... Então preferem ficar escondidas mesmo. Angustiante, né??
_Um cadim. - louca.
_Não sei, mas preciso descobrir do que elas tem medo! Não tem ideia do que estão perdendo olhando para um buraco. Ou talvez estejam presas! Não vê suas pernas tensas e curvadas? Como se quisessem afundar mais na terra. E saber disso é tão estranho. Parece que tem dedos massageando o topo do meu cérebro.
_Mas elas não te contam por que estão lá não?
_Tá louca, mulher? Que dia que árvore vai falar alguma coisa?
_Uh.
_Você não vê, né?
_Necas.
_Certeza?
_Absoluta.
_Mas olha aquela árvore.
_Olhando.
_Olha direito. Foca no tronco, ignora as folhas. As linhas da madeira parecem fazer um direcionamento, não acha? Como se ela estivesse mergulhando no chão. Os galhos são as pernas dela. E pode ter quantas pernas forem. Mas estão sempre contorcidas.
_Oh.
_Oh?
_É! Acho que vi uma virilha.
_Não é uma coisa muito legal de se apontar.
_Desculpe, árvore.

Dois segundos.

_E então?
_Bom - respirei e apertei os olhos, ofuscados pelo sol irritante e amarelo de três da tarde - acho que elas estão se espreguiçando.

Agora meu topo de cabeça parece massageado. Acho que vida contagia.
Divagação minha de quando parei de ver árvores. Exceto coqueiros. Coqueiros não tem pernas.

6 comentários:

  1. Eu sempre achei que as árvores eram golens adormecidos, ao estilo Barbávore de LOTR. Ou então algum disfarce ninja das fadas muito bem elaborado.

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  2. HAHAHAHA boa! Nunca assisti lotr. Goglei barbávore e me lembrou um outro filme viagem que agora esqueci o nome.

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  3. Dá um google nas crônicas de spiderwich (ou coisa parecida) você não vai mais ver os sapos da mesma maneira.

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  4. Acho que já assisti, mas bem pirralha pq não me lembro de nada de sapos HAHAHA

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  5. "Exceto coqueiros. Coqueiros não tem pernas." hahaahahahahahahahahahahahahahahha morri! Sabe que eu nunca tinha pensado nessa das árvores? Vou tentar ver pra ver se estão se enfiando debaixo da terra mesmo hahaha'

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  6. É VICIANTE não dá pra pararrr

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