segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Eu não existo pra isso



Minha cabeça é uma roleta russa. É suicida, louca, desprendida do chão e brinca com os sentidos, quinas, com as reações do corpo ao perigo. É uma chance em cinco, é 1/5, é 20% ou 0,2 de algo dar muito errado. E se de dez, oito, não ganho nem perco nada.
Riscos sem propósito, competir consigo mesmo. Se não chegar até a porta em 3 segundos, o resto do dia vai ser de azar. Tudo por alguns segundos de ousadia, excitação, adrenalina. Cada passo é bruto e estremece. Um baixo muito alto (!) e grave pode causar um efeito parecido sem grandes riscos. É uma sensação, no mínimo, engraçadinha. Tremer por dentro, digo. Arrepiar no calor. Sentir cócegas com dedos em pontos específicos. Rolar na grama molhada. A sensação do segundo após um espirro. Arranhar as costas. Tontura ao se levantar. Pressão nos ouvidos em viagens de carro. Cérebro que congela ao tomar milkshake rápido. Reparar o quanto você saiu da rota que o gps te indicou. Ela parecia tão certa!
Não se encontrar no próprio corpo ou identificar os próprios sentidos. Os cinco, os cem, se quiser. Se observar de longe, se ver estática enquanto a cabeça é frenética (sempre). Desesperada, buscando eternamente uma sala acolchoada para bater com a cabeça em qualquer superfície que enxergar. Devia estar chorando. Não devia rir em funerais. Amarelo remete mais à melancolia que alegria. Bukowski é superestimado. Não superestime as pessoas, elas são só pessoas. Não sinto fome, não sou humana, não quero álcool, não fico ansiosa. Uma alma perdida, pessoa de lua, toque fútil de quem desconhece carinho (que nunca viu direcionado a si). Completamente louca.
Já sonhei com situações mais bizarras e sempre pareciam mais reais do que essa. De ser só um sujeito osso-carne-pele. Muitas camadas de micro vidas irrelevantes que formam uma macro vida irrelevante onde o gelado do milkshake desce da cabeça para o estômago e parece vertigem ou fome ou gastrite. Cabeça excêntrica, nunca cala a boca enquanto os olhos dançam e nunca param e mãos manchadas de caneta azul, já que é impossível esperar a tinta secar antes de começar a escrever outra linha. Ser ilegível, fazer o ininteligível, dormir de coberta e ventilador. Enjoo que não passa com remédio e vem e fica quando quer. Mais impossível de esconder que crise de riso. Mas reparo os nós que faço nos dedos e reparo que pelo menos uma reação eu consigo expressar. Angustiante, mas tá aí. Queimando ao som de The Killers numa fogueira figurada. "Gente apaixonada" ou sei lá como chamam.

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