domingo, 17 de abril de 2016

Competir por uma carteirinha melhor


Parece que o ponto principal de todos os movimentos de reação a imposições, empoderamento e relativos acaba sendo esquecido pelo fenômeno que resolvi chamar de Adição de Níveis em Carteirinhas. Níveis, hierarquia, posição. Qualquer coisa que remeta a competição.

Vamos parear alguns exemplos: Mulheres. Negros. LGBT+s. Veganos. Os três primeiros como minorias e o último como reação aos maus tratos aos animais, negligência quanto a industria da carne, laticínios, couro, etc.
Os exemplos são meramente ilustrativos. Não quero dizer que eu vejo isso todo dia, não quero apontar dedos, não quero biscoitinho, não quero desmerecer ninguém. Só quero demonstrar meu ponto.

Então, Adição de Níveis em Carteirinhas. Vamos naquela onda de que uma pessoa com um mínimo de empoderamento tem a "carteirinha do movimento". Carteirinha de feminista, carteirinha de ~viado~. Carteirinha só no simbólico, não na situação pejorativa ou de brincadeira que geralmente recebe esse nome. Atitudes de empoderamento são como pontos que te fazem subir um nível na sua carteirinha. A crespa parou de alisar, a mulher parou de se depilar, o gay se assumiu para a família, o vegano cortou maquiagem testada em animais... O alisar, o depilar, o homem-com-roupa-de-homem, a negligência quanto aos animais para um luxo. Essas são atitudes normais para os grupos citados.

Pontos.

O "vegano" fica meio isolado na questão, já que a questão do especismo é diferente, mas no meu ponto vai fazer sentido. Enfim.

A transição, a reação a padrões de beleza, o "sair do armário", o sair da zona de conforto. São coisas feitas por quem tem consciência de que estava numa situação ruim e reagiu. Percebeu que podia fazer algo com relação a isso e fez.
O problema é querer converter essas atitudes em pontos para desvalorizar quem ainda não conseguiu realizá-las. Ou sequer quer realizá-las.
Porque esses grupos são enormes. E alémde cada um ter o seu momento, todos tem também a opção de aderir a algo ou não. Por que desvalorizar o outro por causa de um nome? O título? A força de se nomear feminista. A força de virar vegano. O estranhamento que isso gera. E mesmo dentro desses grupos rolam uma espécie de competição. Como se algumas pessoas quisessem se provar melhores, mais empoderadas, mais um exemplo a ser seguido. Exaltando o que faz, esnobando quem não faz (ou quem ainda não faz).

O ovolactovegetariano se intimida e se sente pressionado na transição para o veganismo por depreciação dentro do grupo. Como se fosse uma pessoa inferior.
A bissexual ouve asneira dentro do movimento porque "bi sofre menos, é menos, merece menos a certeirinha". Pan sequer existe ali no meio. Lésbica que não for caminhoneira não é lésbica.  Por esse lado, é o que chamam de movimento GGGG. Mas os próprios gays pressionados a sair do armário, merecidos ou desmerecidos por serem/não serem afeminados.
A negra que chora por odiar seus traços enquanto brancos a hostilizam. A negra fetichizada que acha que o problema é com ela. A negra que alisa seus cachos porque quis.
O vegano em transição que é "menos vegano" por consumir mel, que é escoraçado dentro do movimento por ter uma camisa de seda ou pelo que for.
A mulher que ainda sente nojo do próprio corpo, dos pelos, da vagina, que está presa em um relacionamento abusivo (inclusive vou falar desse caso específico depois), que usa sutiã porque gosta e acaba sendo deixada de lado.

Deu pra entender? Não é pelo mel, pela chapinha, pela maquiagem, pelo salto, pelo que for. É ótimo que você tenha conseguido se libertar dessa fase.
Não pressionem. Não apressem. Não desvalorizem. Porque, se for o caso, cada um precisa viver uma fase de libertação e qualquer coisa que fuja da compreensão dentro de um movimento. E um outro lado, esquecido frequentemente, é que o empoderamento quer reafirmar seu poder de escolha. Eu escolho usar maquiagem, usar sutiã, me depilar, usar apenas roupas femininas... E eu não sou menos feminista por isso. E eu não deveria precisar provar um nível de feminista. Se mereço essa carteirinha, se devo ser rebaixada na carteirinha porque isso não existe. Ou não devia existir.

Para mim é mais fácil falar disso no ponto de vista de mulher. O resto ou não é parte da minha voz ou não convém falar, heuheuheuhe. Mas deu pra entender, certo? Não desvalorizar o coleguinha? Lembrar que ele é gente, que ele tem seu tempo e que ele tem o poder de escolha?
SEM HIERARQUIA DE CARTEIRINHA. Deixa todo mundo viver com suas carteirinhas e falta de carteirinhas em paz. Sem competições sem fundo. Sem "pontuações".

Empatia, mores. Sempre é importante ter.

4 comentários:

  1. Venká e me abraça. Fim.
    ...
    Mentira.
    Eu concordo com você, seus pontos são MUITO relevantes e extremamente importantes de serem levantados aqui. Temos essa péssima cultura de competição, e em vez de ajudarmos quem ainda não se libertou, ou quem se libertou e escolheu esses pontos citados no fim do texto, ficamos competindo. Competindo por coisas inúteis.
    Assunto delicado o relacionamento abusivo, mas mesmo assim temos que ter paciência e ajudar a amiguinha [ou o amiguinho] nesse assunto, principalmente nesse assunto.
    Adorei seu blog, seu texto, tudo!

    Shay Esterian | @shayesterian | EU NÃO QUERO IR EMBORA | YOUTUBE

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    1. SIM! Não devia ser uma briga por quem é mais empoderado (???) e sim uma libertação por SER empoderado e ajudar quem quiser uma mão. Eu vejo, por exemplo, reforçarem que "ah, você sabe que depilação é dessa cultura, então saiba que faz parte dela, então saiba que faz parte dela, então saiba que faz parte dela, então saiba que faz parte dela, então saiba que faz parte dela, então saiba que faz parte dela, então saiba que faz parte dela, então saib"QUE SACO, sabe? A mina sabe, chega um ponto que parece que quer que ela se sinta mal com a DECISÃO dela. E isso vale pra mutchas coisa. E lindona você, te segui no instagram! hueheuheue

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  2. Concordo plenamente com o texto, mas não posso deixar de problematizar o seguinte trecho: "E um outro lado, esquecido frequentemente, é que o empoderamento quer reafirmar seu poder de escolha. Eu escolho usar maquiagem, usar sutiã, me depilar, usar apenas roupas femininas... E eu não sou menos feminista por isso."
    Então, não, ninguém se torna menos feminista por isso, mas... a mulher sofre uma pressão tão grande na sociedade para fazer os itens citados que, na verdade, não é exatamente uma escolha; é uma questão de ceder ao que tanto demandam dela. Portanto, seguindo isso, "escolher" algo que, estruturalmente, te oprime, não tem como ser empoderador... é claro, ninguém jamais deve ser hostilizado por isso, é difícil (e muito) se adaptar a alguma mudança como parar de usar maquiagem (por mais que pareça algo bobinho, é insuportável ter que ouvir um "não vai passar um batonzinho?" toda hora antes de sair de casa e não ter tempo pra dar AQUELE discurso), se depilar e coisas afins que fazem a sociedade te olhar torto, mas, apesar de "ir contra a maré" não ser motivo pra ninguém subir de nível na carteirinha, essas atitudes são, sim, importantes. Enfim, achei um ótimo texto, só achei importante ressaltar isso porque eu sou *muito* chata UHEAJDHFJD

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    1. huahahahaha eu entendo seu ponto, apesar de não concordar com ele. Afinal, desconsiderar tais opções como, bom, opções, torna o único caminho considerado 'livre' sendo o oposto. E nem todo mundo vai se sentir bem nele. E nem precisa se forçar a se sentir bem nele. Num dia, quis usar sutiã. Achei confortável, me senti bonita. No outro, tive preguiça. Preferi deixar os peitos livres. Num dia, me achei maravilhosa de sombra brilhante. No outro, não quis nem deixar um pó chegar perto da minha pele. Cortei meu cabelo joãozinho. Saí de saia no joelho. Enfim. A questão não é o que é empoderador ou não, e sim querer que cada aspecto da sua vida seja sempre o "empoderado" e querer que sempre se sinta "empoderada" por ele. Independente de como você se sente a respeito disso. E, a partir daí, desvalorizar as pessoas que não estão agindo de tal maneira. Seja por falta de coragem ou falta de vontade. Porque se for por coragem, a pessoa chega lá. Se for por vontade, não faz sentido forçar. Não sei se me fiz clara. Mas é por aí mesmo heuheueuhe

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